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  • Francisco Nakahara

Um passo de gigante


Já estava escurecendo quando fui chamado pelo instrutor para o mergulho de checkout básico, mesmo tendo performance boa na piscina, no mar a 12 metros a realidade podia ser diferente.


Lembro claramente da ansiedade do dia anterior e do fato que só sabia nada no mais puro estilo martelo, quando você cair na água e vai direto para o fundo.


Na quinta feira, antes da viagem a Ilha Grande, liguei para a escola perguntando se com chuva teríamos o checkout e recebi a resposta bem humorada que "debaixo d'água não chove", essa aprendi para o resto da vida.


O Luz do dia, nome do barco, era todo checkout, cerca de 10 casais embarcados revezando nos exercícios, não sei se por conta de minha dupla ter tido dificuldade na retirada de máscara ou se por acaso, mas ficamos por ultimo.


Um passo de gigante e eu já estava em outro mundo, sinal de descer e todos os sons passaram a se resumir nas bolhas que saiam do diafragma do octopus. A cada metro equalização e conferencia de estado entre nós, o famoso OK. De repente senti meus pés batendo em logo e vi que era o fundo arenoso, olhei o profundimetro que registrava 12 metros.


Eu sei, você deve estar pensando que 12 metros faz até no peito livre, mas imagine alguém que mal sabia nadar cachorrinho, no fundo do mar a 12 metros...me senti um astronauta.

André, o instrutor fez sinal para começarmos as demonstrações, ele começaria com minha dupla, depois seria minha vez e... Surpresa!, no primeiro exercício um inicio de pânico e minha dupla disparou em uma subida sem freio imediatamente o André agarrou seu colete e soltou o ar do próprio colete fazendo peso, na tentativa de compensar a velocidade, a meio caminho olhou para baixo e me fez sinal para aguardar com calma.


Fiquei ali, olhando para cima vendo os dois sumirem em um céu de água que a essa altura não deixava ver nada além dos quatro primeiros metros pela baixa claridade da tarde.


No começo me senti completamente sozinho, somente o som das bolhas, depois de uns minutos, talvez por estar quieto o mundo em volta começou a se formar, cardumes de cocorocas e olhos de cão passaram várias vezes á minha volta como se eu não tivesse ali, por vezes se aproximavam como se tivesse em um vôo de reconhecimento, mas de forma bem desconfiada.


Eu já reconhecia outros sons e quando os segui e olhei para o que eu achava serem pedras vi alguns peixes enormes de boca arredondada (peixe papagaio) mordiscando e cuspindo pedaços.


Foram meus primeiros 15 minutos debaixo d'água, cada um deles valeu por uma vida e eu agora tinha certeza que queria estar lá por muito mais tempo na vida.


Dessa experiência veio o aprendizado que com devido respeito podemos ser aceitos em qualquer ambiente, mesmo os conhecidos como selvagens, dessa aceitação a sensação de pertencimento e a gratificação de ver e saber sobre coisas que poucos tem acesso.

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